

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.
Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem: Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.
As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta.
Durante muito tempo você permaneceu como solo aos meus pés e auréola sobre minha cabeça, dormiu em minha cama e partilhou sorrisos, eu jamais disse uma palavra que a ferisse, nem quando queria faze-lo, de alguma forma estranha, talvez indecifravel, você era parte de mim, a pior parte delas e eu não me envergonhava de pensar assim. Mas deveria. Ontem sem dizer porquê, pedi para que partisse, e cá estou, parado em frente a nossa (minha) casa, todas as luzes apagadas quando a escuridão enfim nos engole, deveria mesmo mandar parte de mim partir? Sim. Por quê? Não sei. Suas malas estavam pesadas então ajudei a carrega-las a uns 10 metros do nosso portão, portão agora meu, e me voltei rapidamente sem olhar de misericórdia enquanto podia sentir que me encarava desesperada buscando os olhos que não as alcançavam, há tempos não prestava tanta atenção as flores do jardim, me pareciam interessantes agora: ”não deixe de olha-las, não mova os olhos daqui” Quem iria me certificar que era seguro mover os olhos agora? Droga! Abri os ouvidos para escutar seus passos se afastando e não escutei nada, só vento, você foi divina mas não caminhava como vento, por questão de segurança meus olhos ainda fitavam as flores do jardim […]
[…] Ontem tomei tal decisão, era tarde da noite e não havia como fazer malas, chamar o táxi ou voltar atrás, estavamos na mesma cama, tamanha crueldade de minha parte, então me levantei e desci as escadas sedento por café e cigarros (há quanto tempo estas flores não são cuidadas?) Se fossem os velhos tempos, você desceria neste momento e me ajudaria a preparar torradas porque não sou muito bom nisso (Há ervas daninhas sufocando as flores) tive medo que realmente viesse até a cozinha como em tempos passados, mas você não veio, mesmo assim por garantia resolvi fumar meus cigarros e tomar meu café do lado de fora, na varanda. (Isso são Lírios? sou tão leigo) Quando por enfim parei de escutar meu próprio coração batento com violencia em meus ouvidos, fui capaz de escutar um soluço ao longe que partiu meu coração […]
[…] Ergui um pouco os olhos para me certificar que tinhas mesmo partido, e a vi! Droga! Você me viu? Não poderia, estava de costas, olhando para os sapatos (talvez), o que estava esperando afinal?
Eu havia dito que existia outra pessoa, era mentira, nunca haverá. Mas não posso deixar que finalmente tenha acabado aqui, a procura por alguém que se vale a pena morrer, pois nunca acreditei nisso. É óbvio que não diria a você o real motivo de pedir para que partisse. Você iria se vangloriar de ter me capturado e voltar quantas vezes lhe fosse conveniente, odeio idas e vindas, odeio rodeios e não nasci para o romance.
Ergui os olhos mais uma vez e lá estava você, olhando pra mim com olhos tão vermelhos, palpebras tão inchadas e eu quase adivinhei o que estava pensando, mas ao invés de descobrir, me virei e parti eu mesmo, fechei a porta a minhas costas e não concluí o acontecimento.